27/07/2017
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Ao subverter duas técnicas tradicionais, a do cristal artesanal e a da carbonização da madeira, Kengo Kuma criou uma coleção original de luminárias de vidro

Carbonizar a superfície exterior da madeira, deixando-a negra e craquelada, é uma técnica tradicionalmente utilizada por pescadores de ilhas japonesas para construir suas casas. A queima controlada é uma maneira de prolongar a durabilidade das fachadas de madeira: o fogo seca e acrescenta uma camada de carbono à superfície das tábuas, protegendo-as contra incêndios e umidade. Foi o arquiteto japonês Terunobu Fujimori, conhecido por suas referências vernaculares, que difundiu a técnica para o ocidente na década de 1980.

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Foi deste método, chamado Yakisugi ou Shou Sugi ban, que a equipe do escritório Kengo Kuma Associates se lembrou ao fazer os primeiros testes na fábrica tcheca de cristal Lasvit. Fundada em 2007, a Lasvit tem um vasto portfólio de luminárias de vidro criadas em colaboração com grandes arquitetos, designers e artistas internacionais, e havia convidado o famoso arquiteto japonês para integrar os lançamentos da Euroluce 2017.

Ao ver a produção do cristal, Kuma notou o uso dos tradicionais moldes feitos com toras de madeira. No processo de produção do vidro, esses moldes são embebidos em água para que resistam ao calor do material incandescente. A ideia foi experimentar usar a madeira seca, para que sua superfície se queimasse em contato com o cristal fundido saído do forno. O resultado é que o molde, então carbonizado, imprimia no cristal sua textura crepitante.

Com esta pequena subversão no modo de produção, Kengo Kuma reverencia duas técnicas tradicionais, do cristal soprado e a Yakisugi, uma ocidental e a outra oriental. As luminárias pendentes, de formato retangular, capturam o momento vivo da transformação da madeira e da condensação do cristal, ressaltando os contrastes entre as duas matéria-primas.

O fato de a madeira queimar impossibilita que essa seja usada mais de uma vez, fazendo com que cada peça seja única, com diferentes texturas e profundidades das linhas impressas. A exposição delas em conjunto, em Milão, enfatizou essas diferenças sutis que torna. O resultado é uma coleção moderna e minimalista que combina formas geométricas simples com texturas orgânicas incomuns. “Minha intenção foi alcançar a alma profunda da madeira, capturá-la dentro do vidro”, disse o arquiteto.

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Fotos: Divulgação